30/07/2010
Atuação prática amplia a formação dos estudantes
Aprender a conversar com um paciente que sente dor e medo do tratamento, ou com um cliente que precisa, além do auxílio, se sentir seguro em relação ao processo que pretende iniciar. Saber entrevistar jovens que buscam uma oportunidade de trabalho ou convencer uma criança que sua dor de dente pode ser aliviada com o uso de instrumentos barulhentos e assustadores aos olhos infantis. Todas essas tarefas são parte do cotidiano de profissionais de diferentes áreas. Mas quem aprende esse tipo de coisa dentro da sala de aula? Por mais que se prepare um estudante, algumas situações da vida profissional são imprevisíveis.
Se para os universitários a vivência do mundo real da área de estudos é uma oportunidade única e pode até ser um diferencial de competitividade no mercado de trabalho, para comunidades carentes, os serviços oferecidos por universidades que procuram treinar seus estudantes sob a supervisão de corpo docente treinado podem ser a única chance de acesso a serviços aparentemente básicos.
Alguns cursos na área da Saúde, por exemplo, exigem essa experiência em caráter oficial a partir do cumprimento de carga horária pré-determinada e regulamentada pelos órgãos de competência de cada profissão. Outros, no entanto, mesmo sem essa obrigatoriedade, estimulam e valorizam o contato dos alunos com a prática. Caminho já descoberto e percorrido por muitas instituições brasileiras que ao mesmo tempo em que possibilitam o contato de seus alunos com o dia a dia de suas profissões, assumem suas responsabilidades sociais a partir do atendimento gratuito da comunidade.
Um exemplo disso são os serviços oferecidos pelo Centro Clínico de Saúde Integral da USCS (Universidade Municipal de São Caetano do Sul). Contando com a supervisão e orientação de professores, 70 alunos dos cursos de Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia e Nutrição atendem mensalmente cerca de 3.500 pacientes. Dentro da clínica, o público recebe tratamento de todas as especialidades médicas. Carlos Eduardo Panfilio, diretor da área de Saúde da USCS e responsável pelo projeto, aponta o que chama de "formação interprofissional", a integração e a interdisciplinaridade como as principais vantagens da participação dos alunos nessas atividades de extensão.
As ações sociais não beneficiam apenas a formação acadêmica dos estudantes. É o que garante Cristiane Yonezaki, responsável pela Assessoria de Extensão e Pesquisa do Centro Universitário São Camilo. "É importante pensar no desenvolvimento dos alunos, mas também na criação de atividades que possam suprir as necessidades da comunidade em que estamos inseridos. Essa união favorece a formação dos estudantes tanto como profissional como cidadão", ressalta ela. Na opinião da professora, esse engajamento aumenta ainda a bagagem de conhecimento dos alunos e garante maior segurança no momento de enfrentar o mercado de trabalho.
Panfilio acrescenta ainda que a prática pode servir como instrumento de motivação. "O aluno desperta interesse muito maior pela formação e isso reflete na sala de aula. Ele fica muito mais envolvido com as atividades acadêmicas", diz ele. Moacir Augusto Torossian Piotto, 32 anos, aluno do quarto ano de Fisioterapia, confirma as vantagens destacadas pelo professor. O estudante, que faz parte da equipe da clínica de reabilitação da USCS, conta que a lição mais valiosa da experiência é aprender a acolher o paciente e enxergá-lo como ser humano, além de aprimorar as relações sociais. "Os professores dão todo o apoio e suporte que os estudantes precisam e, no final das contas, surge até uma relação de coleguismo", afirma ele.
O desenvolvimento humano destacado por Piotto também é reconhecido por Guilherme Oriel Aguillar, 22 anos, estudante de Educação Física. O praticante de esportes como parkour e ninjutsu, optou por exercer monitoria na escola de ginástica criada dentro de sua instituição de ensino. A atividade, que atende cerca de 120 crianças entre quatro e nove anos de idade, mescla brincadeiras com exercícios de ginástica olímpica, rítmica e aeróbica. Aguillar conta que seu maior desafio é despertar o interesse das crianças em cumprir a proposta das aulas. "A partir dessa dificuldade tenho desenvolvido minha capacidade de socialização, ao mesmo tempo em que tenho que estimular essa habilidade nos alunos", declara o estudante.
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O estudante Guilherme Oriel Aguillar defende que a atividade de extensão o auxiliou a desenvolver habilidades sociais |
Embora Piotto e Aguillar recebam bolsa-auxílio em troca da prestação de serviço, nem todas as atividades de extensão são remuneradas. No núcleo de SOS Direito da USJT (Universidade São Judas Tadeu), estudantes voluntários se candidatam à prestação de assistência jurídica à comunidade sob a orientação de professores. "O SOS Direito tem como objetivo informar a população carente sobre seus direitos básicos, que envolvem a área cível, de consumo e a legislação que diz respeito às pessoas deficientes", define Roberto Bolonhini Junior, coordenador do projeto. Segundo ele, a ausência de remuneração é suprida a partir da bagagem prática adquirida. Na opinião do professor, os alunos envolvidos ganham uma visão mais ampla da área de atuação. "Recebem conhecimento específico, conseguindo reforçar o que assistem em sala de aula para desenvolverem suas atividades", enfatiza ele.
A cidade de Tubarão, em Santa Catarina, também conta com um projeto universitário voltado às comunidades carentes: a Clínica Odontológica da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina) que segundo seus coordenadores, seria responsável por 30% dos atendimentos odontológicos realizados no município. Naudy Brodbeck May, responsável pelo espaço, conta que a partir do quarto semestre todos os estudantes do curso de Odontologia passam a integrar a rotina da clínica.
Ele explica que as atividades evoluem de acordo com o avanço dos semestres. "A complexidade é crescente e no final do curso eles já realizam todas as atividades que um dentista exerce normalmente dentro de um consultório", explica May. O professor diz que nas pesquisas de satisfação, 98% dos pacientes atendidos aprovam o tratamento. Ele ressalta ainda que, dez anos depois do início do curso na Unisul, todos os alunos que passaram pela experiência conseguiram colocação profissional.
Além do atendimento oferecido periodicamente, algumas instituições realizam eventos que integram diversos estudantes dos mais variados cursos, com o objetivo de atender a população. A Unisa (Universidade de Santo Amaro), por exemplo, realizou em 2009 a primeira edição do chamado "Unisa em Ação na Comunidade", uma iniciativa que reuniu cerca de 930 voluntários, entre professores e alunos das áreas de Ciências Biológicas e da Saúde, Ciências Humanas e Ciências Exatas para oferecer assistência gratuita. Na ação, 3.439 pessoas foram atendidas e puderam usufruir de várias atividades, que foram desde medição de pressão arterial e impressão de segunda via de documentos até orientação jurídica e elaboração de currículo profissional.
As atividades junto ao público podem até gerar alguma insegurança nos estudantes menos habituados ao trato com o dia-a-dia da profissão, mas além de ser uma oportunidade segura para os alunos, também parecem estimular os iniciantes sob diversos pontos de vista. "Me sinto incluído no mercado de trabalho", resume Piotto. "É muito bom saber que faço parte da formação dessas crianças. Essa recompensa não tem preço", completa Aguillar.
fonte:
UNIVERSIA BRASIL
http://www.universia.com.br/universitario/materia.jsp?materia=20012